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Análises Eleições 2026

Eleições 2026: voto e desenvolvimento nos municípios

Por Eduardo Lima e Mariana Costa dados do TSE, IBGE e INEP

Quanto mais rico, escolarizado e saneado o município, menor foi a votação de Lula no 2º turno de 2026. Quanto mais pobre e com pior cobertura de serviços, maior. A relação é forte, mas não uniforme: muda de região para região, tem exceções relevantes e não permite inferir o voto de cada pessoa.

Cruzamos os 5.570 municípios com resultado oficial do TSE com PIB per capita, IDEB, saneamento, renda, alfabetização e IDH. O padrão aparece nos três blocos, mas é mais forte em renda e PIB do que em IDEB e saneamento; entre os serviços, a coleta de lixo se destaca.

PIB per capita
76,1% → 39,1%
do Q1 mais pobre ao Q5 mais rico
IDEB anos iniciais
67,4% → 46,2%
do pior ao melhor IDEB
Cobertura de esgoto
56,6% → 44,2%
do menor ao maior percentual
Coleta de lixo
67,7% → 40,9%
do menor ao maior percentual

PIB per capita: um gradiente forte

A votação média de Lula cai de 76,1% no quinto mais pobre para 39,1% no quinto mais rico — uma diferença de 37,0 pp. A mediana do PIB per capita em cada quintil vai de R$ 12.813 a R$ 75.382.

  • 20% mais pobres · R$ 12.813 76,1%
  • Q2 · R$ 18.752 64,3%
  • Q3 · R$ 29.895 48,3%
  • Q4 · R$ 44.858 41,0%
  • 20% mais ricos · R$ 75.382 39,1%

Ponderando pelo tamanho da população, a queda é menor, mas continua: de 74,5% para 44,8%. O padrão não é só de municípios pequenos. A correlação de Spearman é -0,741; a de Pearson, -0,703.

Há exceções. Sinop (MT), com PIB per capita de R$ 59.783, deu apenas 22,3% a Lula; Simões Filho (BA), com R$ 74.270, deu 74,2%. PIB per capita não é renda das famílias, e municípios com petróleo, mineração ou agroindústria podem ter um PIB alto sem população mais rica.

IDEB: educação também separa, mas menos

Nos municípios com pior IDEB nos anos iniciais, Lula teve média de 67,4%; nos com melhor IDEB, 46,2%. A diferença é de 21,2 pp, mas a queda não é perfeitamente monotônica: o Q4 fica em 45,2% e o Q5 sobe um pouco. A correlação de Spearman é -0,432.

  • pior IDEB · 5,2 67,4%
  • Q2 · 5,8 58,8%
  • Q3 · 6,3 49,8%
  • Q4 · 6,7 45,2%
  • melhor IDEB · 7,3 46,2%

O IDEB tem 5.478 municípios com dado. No Nordeste, a correlação é praticamente nula (0,04); no Norte, é -0,35. Ou seja: o IDEB ajuda a explicar o voto em algumas regiões, mas não na principal base de Lula.

Saneamento: esgoto e lixo, sinais diferentes

A cobertura de esgoto tem relação mais fraca e não monotônica: a votação de Lula é 56,6% no quintil de menor cobertura, sobe para 58,4% no intermediário e cai para 44,2% no de maior cobertura. A coleta de lixo é mais consistente: 67,7% no menor nível, 40,9% no maior.

Esgoto

  • menor cobertura · 0,8% 56,6%
  • Q2 · 6,4% 57,1%
  • Q3 · 31,6% 58,4%
  • Q4 · 59,5% 52,4%
  • maior cobertura · 86,1% 44,2%

Coleta de lixo

  • menor cobertura · 53,2% 67,7%
  • Q2 · 72,3% 59,8%
  • Q3 · 84,6% 53,9%
  • Q4 · 93,0% 46,4%
  • maior cobertura · 98,0% 40,9%

As correlações de Spearman são -0,230 para esgoto, -0,202 para água e -0,511 para lixo. Saneamento pesa menos que renda e alfabetização, e o sinal varia por região: no Sudeste, esgoto tem correlação de -0,42; no Norte, -0,03.

Renda e alfabetização vêm antes

A tabela abaixo reúne as correlações com a votação de Lula. Pearson mede a relação linear; Spearman usa os rankings e é menos sensível a valores extremos; a última coluna pondera os municípios pela população.

Correlação entre votação de Lula e indicadores municipais
Indicador n Pearson Spearman Ponderado
PIB per capita (log) 5.570 -0,703 -0,741 -0,564
IDEB anos iniciais 5.478 -0,378 -0,432 -0,354
IDEB anos finais 5.491 -0,347 -0,394 -0,342
Esgoto (%) 5.570 -0,254 -0,230 -0,332
Água (%) 5.570 -0,180 -0,202 -0,226
Lixo (%) 5.570 -0,498 -0,511 -0,485
Renda per capita 5.570 -0,760 -0,811 -0,397
Alfabetização 5.570 -0,806 -0,795 -0,667
IDH 5.570 -0,762 -0,761 -0,561

As associações mais fortes são renda (-0,811), alfabetização (-0,795), IDH (-0,761) e PIB per capita (-0,741). IDEB e saneamento ficam atrás. Mas esses indicadores são altamente correlacionados entre si: não é possível dizer que um deles “causa” o voto, nem separar completamente seus efeitos.

Dentro das regiões, o padrão muda

A correlação bruta pode ser efeito de composição regional: o Nordeste é mais pobre e vota mais em Lula; o Sul é mais rico e vota mais em Flávio. Para testar isso, calculamos a correlação dentro de cada região.

Correlação de Spearman entre voto em Lula e indicadores, por região
Região n PIB IDEB Esgoto Lixo
Norte 450 -0,62 -0,35 -0,03 -0,09
Nordeste 1.794 -0,45 0,04 -0,22 -0,46
Centro-Oeste 467 -0,40 -0,20 -0,01 -0,07
Sudeste 1.668 -0,54 -0,25 -0,42 -0,48
Sul 1.191 -0,35 -0,15 -0,10 -0,34

O PIB per capita tem sinal negativo nas cinco regiões, mas varia de −0,35 no Sul a −0,62 no Norte. O IDEB é negativo em quatro regiões e praticamente zero no Nordeste. O saneamento é o mais instável: esgoto e lixo têm relações claras no Sudeste, mas quase nenhuma no Norte. Mesmo dentro do mesmo estado, a associação continua negativa para PIB (−0,36), lixo (−0,38), IDH (−0,43), esgoto (−0,20) e IDEB (−0,16).

Exceções que ajudam a ler o mapa

Entre os municípios com 100 mil habitantes ou mais, os extremos mostram que a regra tem exceções. Os menores votos em Lula estão em cidades ricas do Sul e do Centro-Oeste; os maiores, em cidades pobres do Nordeste e do Pará.

Menores votações em Lula (100 mil+)

Maiores votações em Lula (100 mil+)

  • Crato (CE) · 81,8% · PIB R$ 18.661
  • Paulo Afonso (BA) · 79,4% · PIB R$ 37.733
  • Cametá (PA) · 78,2% · PIB R$ 14.171
  • Codó (MA) · 77,2% · PIB R$ 15.822
  • Abaetetuba (PA) · 75,5% · PIB R$ 15.432
  • Itapipoca (CE) · 75,3% · PIB R$ 19.450

Esses exemplos não invalidam a correlação; mostram que ela é uma tendência, não uma regra individual. Cidades com PIB alto podem votar em Lula por composição social, emprego público, migração ou política local — fatores que o PIB per capita não captura.

Como foi calculado

  • Voto: votos válidos nominais para presidente no 2º turno de 2026, TSE (eleição 6258), por município.
  • PIB per capita: PIB municipal de 2023 dividido pela população do Censo 2022 (IBGE). Usamos log10 para Pearson e rankings para Spearman.
  • IDEB: anos iniciais e finais da rede pública, edição 2025 (INEP); cobertura de 5.478 municípios nos anos iniciais.
  • Saneamento: cobertura de esgoto, água e coleta de lixo no Censo 2022 (IBGE).
  • Renda per capita, IDH e alfabetização: Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil (2010) e Censo 2022, conforme a base do dataBR.
  • Correlações calculadas sobre municípios com os dois dados disponíveis; a ponderação usa a população municipal como proxy de tamanho do eleitorado.

Limitações

  • Falácia ecológica: os dados são médias municipais. Uma correlação entre municípios não descreve o comportamento de indivíduos.
  • Correlação não é causalidade: PIB, renda, IDH, alfabetização e IDEB medem coisas parecidas e se confundem com região, urbanização e história política.
  • PIB per capita não é renda das famílias: petróleo, mineração, agroindústria e repasses públicos podem elevar o PIB sem elevar a renda local.
  • Cobertura: o IDEB tem 5.478 municípios; o mapa usa 5.570 resultados municipais, sem os votos do exterior e sem Boa Esperança do Norte (MT).
  • Ponderação: a correlação ponderada pela população reduz a força da associação, mas não muda o sinal.

Leia também a análise completa da eleição, veja o mapa por município, o especial com 10 retratos municipais e a metodologia do dataBR.